segunda-feira, 6 de junho de 2011

Uma boa leitura!

Este obscuro objecto do desejo etnográfico: o museu
Jean-Yves Durand
Universidade do Minho (UM, Braga); Centro em Rede de Investigação em  
Antropologia (pólo UM); Institut D’Ethnologie Méditerranéenne Et Comparative
(Aix-en-Provence)
                                     
                                   

           “Vite, Milou, au musée ethnographique !”: quando o Tintim sai de casa a correr, no início de A Orelha Quebrada, o seu visível entusiasmo não provém de um particular interesse em exposições ou em colecções de etnografia exótica: acabou de ser anunciado na rádio que durante a noite o museu foi palco de um intrigante assalto e que desapareceu um fetiche muito raro.
Uma parte da atracção operada pela obra de Hergé resulta sem dúvida da sua notável capacidade para dar um valor icónico aos seus desenhos: um carro, um polícia ou um foguetão desenhados por ele não são um carro, um polícia ou um foguetão quaisquer, são o carro, o polícia e o foguetão, quase que arquetipais.
Da mesma maneira, nalgumas pinceladas, as imagens da primeira página de A Orelha Quebrada chegam para nos mostrar uma instituição que parece corresponder exactamente à sua imagem mais difundida no imaginário partilhado: monumentalidade da entrada; organização por áreas geográfico-culturais extra-ocidentais; rotulagem descritiva e descontextualizadora; artefactos seleccionados antes de mais por razões estéticas; público burguês contido, cuidadoso (já que as vitrinas são algo estranhamente raras aqui) em não quebrar a distância física, limitando um deleite que só pode ser visual; guarda fardado, detentor de inquestionável autoridade institucional, mas que trata os objectos com a familiaridade de um coleccionador blasé, etc. Em suma, mais ou menos aquilo que um estudante em antropologia formado hoje em dia aprende que um museu etnográfico não deve ser.

http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/etn/v11n2/v11n2a04.pdf

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